Bruxismo é a causa de 30% dos casos de zumbido. Tratamento é multidisciplinar.
O zumbido no ouvido (tinnitus) é um sintoma frequente e muitas vezes debilitante, que causa incômodo constante para milhares de pessoas. O que muitos ainda não sabem é que o bruxismo — ato involuntário de ranger ou apertar os dentes — pode ser um dos principais responsáveis por esse incômodo sonoro. Neste post, você vai entender por que o zumbido pode ser consequência do bruxismo, aprender quais são os mecanismos envolvidos e, mais importante, descobrir quais são os tratamentos mais eficazes para retomar o silêncio e qualidade de vida.
Luís Gustavo Leite é dentista em Porto Alegre e dedica-se ao tratamento do bruxismo e recuperação dos danos causados pelo distúrbio.
O que é zumbido no ouvido e qual sua frequência?
O zumbido é definido como a percepção de som sem fonte externa real. Pode aparecer como chiado, apito, vento, grilos ou como um zumbido contínuo. Estima-se que cerca de 15% da população mundial já tenha experimentado esse sintoma em algum momento. Entre aqueles que apresentam zumbido crônico, até 30% relatam que a origem está associada à tensão muscular e alterações na ATM — evidência clara do vínculo entre zumbido e bruxismo.
O que é bruxismo e por que causa tantos problemas?
O bruxismo, muitas vezes involuntário, pode ocorrer durante o sono ou em momentos de vigília. As causas são múltiplas:
✓ Estresse emocional e ansiedade,
✓ Distúrbios do sono e alteração neurológica,
✓ Alterações na mordida ou na oclusão dentária.
A consequência é clara: uma sobrecarga intensa nos músculos da face e das articulações temporomandibulares (ATMs), levando a desgastes dentários, dor crônica e, em muitos casos, zumbido no ouvido.

Como exatamente o bruxismo causa zumbido?
Em poucas situações, como nas infecções no ouvido médio, o zumbido no ouvido tem uma causa única. Na maioria das vezes, ele é o resultado de duas ou mais causas, que atuam de forma conjunta para intensificar a sua percepção. E no caso do zumbido no ouvido causado pelo bruxismo, a multi causalidade é ainda mais evidente.
1. Disfunção na ATM e seu impacto sobre o ouvido
A articulação temporomandibular (ATM) é a estrutura que conecta a mandíbula ao crânio e permite movimentos essenciais, como mastigar, falar e bocejar. Ela está localizada em posição anatômica muito próxima ao ouvido interno, o que explica a relação entre alterações na ATM e sintomas auditivos.
Quando o paciente apresenta bruxismo crônico, a articulação sofre uma sobrecarga constante. Essa força excessiva pode levar a:
✓ Inflamação da cápsula articular;
✓ Deslocamentos ou microlesões no disco articular;
✓ Alterações biomecânicas que comprometem a harmonia entre mandíbula e crânio.
Essas mudanças não ficam restritas à articulação. A proximidade com as estruturas do ouvido faz com que o paciente perceba dor irradiada, pressão auricular e, em muitos casos, o surgimento de zumbido. É como se o ouvido “captasse” os efeitos colaterais da sobrecarga sofrida pela ATM.
Estudos recentes confirmam que pacientes com disfunção temporomandibular (DTM) têm uma incidência muito maior de zumbido em comparação à população geral. Isso mostra que, em muitos casos, o tinnitus não é apenas um problema do ouvido, mas sim um reflexo da saúde articular comprometida.
2. Tensão muscular facial que interfere na audição
Outro mecanismo fundamental para explicar o zumbido relacionado ao bruxismo é a tensão muscular crônica. O bruxismo provoca contrações repetitivas e intensas dos músculos mastigatórios, como o masseter e o temporal, além de envolver músculos da região cervical.
Essa hiperatividade muscular tem várias consequências:
✓ Pode gerar dores de cabeça e sensação de peso nas têmporas;
✓ Afeta diretamente o músculo tensor do tímpano, pequeno músculo que regula a vibração da membrana timpânica;
✓ Altera o equilíbrio das estruturas internas do ouvido, favorecendo a percepção de sons inexistentes.
Em outras palavras, a tensão muscular não fica restrita à mandíbula ou ao rosto. Ela repercute sobre o sistema auditivo, criando um ambiente fisiológico no qual o zumbido aparece ou se intensifica. Muitos pacientes relatam que o tinnitus aumenta em dias de maior estresse ou após noites mal dormidas — momentos em que a contração muscular é ainda mais acentuada.
Além disso, há um componente neurológico importante: a tensão repetitiva estimula de forma anômala as fibras nervosas que interligam músculos mastigatórios, ATM e ouvido interno. Esse estímulo cruzado pode levar o cérebro a interpretar sinais inexistentes como se fossem sons reais, consolidando a percepção do zumbido.
3. Alteração na percepção neurológica
O sistema nervoso desempenha um papel fundamental na forma como o ser humano percebe sons e sensações. No caso do bruxismo, a contração repetitiva e involuntária dos músculos da face estimula de maneira contínua os nervos que interligam a mandíbula, a articulação temporomandibular (ATM) e o ouvido interno. Esse bombardeio repetido de sinais pode causar uma espécie de hipersensibilização das vias neurológicas, alterando a forma como o cérebro interpreta os estímulos auditivos.
Com o tempo, essa estimulação constante cria um estado de hiperexcitabilidade neural. Isso significa que as áreas cerebrais responsáveis pelo processamento dos sons passam a reagir de forma exagerada, mesmo diante de sinais muito fracos ou inexistentes. O resultado é a percepção de um som interno — o tinnitus.
Além disso, pesquisas em neurociência mostram que o zumbido não é apenas uma disfunção do ouvido, mas sim uma alteração central do sistema nervoso. Quando há sobrecarga repetitiva dos nervos ligados à mastigação e à ATM, ocorre um processo de plasticidade neural, no qual o cérebro “aprende” a manter o ruído, mesmo sem estímulo auditivo real. Em outras palavras, o zumbido pode se tornar um hábito cerebral difícil de desligar.
Outro ponto importante é que o estresse emocional, tão presente em pacientes com bruxismo, potencializa essa alteração neurológica. O estresse aumenta a liberação de neurotransmissores como a adrenalina e o cortisol, que, por sua vez, amplificam a sensibilidade auditiva. Essa combinação de fatores — sobrecarga dos nervos periféricos e estado de alerta constante do sistema nervoso central — cria um terreno fértil para o surgimento ou agravamento do tinnitus.
Essa explicação também ajuda a entender por que muitos pacientes relatam que o zumbido piora em períodos de maior ansiedade ou noites mal dormidas: nessas situações, tanto o bruxismo quanto a hiperatividade cerebral aumentam, intensificando a percepção sonora.

Quais sinais acompanham o zumbido causado por bruxismo?
Se o paciente apresenta zumbido conjuntamente com um ou mais desses sinais e sintomas abaixo, é muito provável que o bruxismo esteja no centro do problema.
✓ dor facial ou nas têmporas,
✓ estalos ao abrir ou fechar a boca,
✓ dor de cabeça ao acordar,
✓ sensação de ouvido cheio,
✓ desgaste dental acentuado.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico do zumbido no ouvido causado pelo bruxismo é feito, inicialmente, no consultório do dentista, através da auscultação dos barulhos existentes na articulação ATM, palpação dos músculos associados ao bruxismo e constatação de limitações na abertura e movimento da boca, sinais comuns no paciente com bruxismo até mesmo leve. Além deles, o dentista também pode solicitar outros exames complementares:
✓ Avaliação clínica odontológica, com palpação muscular e revisão da ATM.
✓ Exames complementares: tomografia ou ressonância para avaliar estruturas internas.
✓ Encaminhamento ao otorrinolaringologista para afastar outras causas.
✓ Análise da correlação entre bruxismo e zumbido — diagnóstico essencial para direcionar o tratamento adequado.

O tratamento do zumbido no ouvido causado pelo bruxismo.
O tratamento do zumbido causado pelo bruxismo é multidisciplinar. Isso significa que a adoção de procedimentos únicos, como o uso diário da placa de bruxismo, podem não ser o suficiente para eliminar o zumbido. Veja os principais procedimentos recomendados no tratamento, para serem usados de forma conjunta:
Placa de bruxismo (miorrelaxante)
A placa de bruxismo, também chamada de placa miorrelaxante ou placa interoclusal, é considerada o tratamento padrão mais indicado para pacientes que apresentam sinais de desgaste dentário, dor muscular e sintomas relacionados à disfunção da articulação temporomandibular (ATM). Seu principal objetivo é proteger a dentição contra fraturas e desgastes, ao mesmo tempo em que promove um alívio significativo da sobrecarga na articulação e na musculatura mastigatória.
Com os avanços tecnológicos, especialmente na odontologia digital, as placas passaram a ser confeccionadas por meio de sistemas de fresagem computadorizada (CAD/CAM). Esse processo garante uma adaptação extremamente precisa aos dentes do paciente, o que traz benefícios diretos: maior conforto durante o uso, redução de pontos de pressão indesejados, além de uma durabilidade superior em comparação às placas tradicionais confeccionadas manualmente.
Além da função protetora, a placa tem também um efeito terapêutico. Ao reposicionar a mandíbula em uma posição mais estável e equilibrada, ela diminui a hiperatividade dos músculos mastigatórios, reduzindo episódios de dor facial, cefaleia e até mesmo sintomas auditivos como o zumbido. Para pacientes que sofrem de bruxismo noturno, essa intervenção simples pode representar um divisor de águas na qualidade de vida, permitindo noites de sono mais reparadoras e redução da tensão acumulada durante o dia.
Fisioterapia e exercícios faciais
A fisioterapia aplicada à região orofacial é uma aliada valiosa no tratamento do bruxismo e de suas complicações. O trabalho consiste em técnicas específicas que visam reduzir a tensão acumulada nos músculos mastigatórios, melhorar a mobilidade articular da ATM e promover o reequilíbrio postural. Entre os recursos mais utilizados estão os alongamentos musculares, a terapia manual para liberação de pontos de tensão e exercícios que estimulam a coordenação correta dos movimentos mandibulares.
Os alongamentos da musculatura mastigatória são indicados para diminuir a rigidez dos músculos temporais e masseteres, frequentemente sobrecarregados em pacientes com bruxismo. Ao realizar exercícios de abertura suave da boca, movimentos controlados de lateralidade e técnicas de relaxamento, o paciente experimenta uma redução progressiva da dor e melhora na amplitude dos movimentos.
Outro ponto fundamental é a terapia postural. Estudos recentes mostram que a postura da cabeça e do pescoço está diretamente relacionada ao funcionamento da ATM. Pacientes que passam longos períodos diante do computador, por exemplo, tendem a projetar a cabeça para frente, o que aumenta a sobrecarga sobre a musculatura cervical e mandibular. A correção postural associada a exercícios fisioterapêuticos não apenas melhora a função da ATM, mas também contribui para a diminuição de sintomas como dor de cabeça, fadiga muscular e zumbido.
Manejo do estresse
O bruxismo está intimamente ligado a fatores emocionais, sendo considerado por muitos especialistas uma resposta do organismo ao estresse e à ansiedade. Nesse contexto, o manejo adequado do estresse desempenha um papel central no tratamento, complementando a atuação odontológica.
Entre as estratégias mais eficazes estão as terapias psicológicas, que ajudam o paciente a reconhecer gatilhos emocionais e desenvolver mecanismos saudáveis de enfrentamento. O mindfulness, técnica baseada na atenção plena, tem ganhado destaque nos últimos anos como recurso para reduzir a hiperatividade mental e melhorar a qualidade do sono — dois aspectos diretamente relacionados à intensidade do bruxismo.
Além disso, atividades físicas regulares, práticas de respiração profunda e meditação também podem ser incorporadas à rotina como ferramentas acessíveis para diminuir a tensão acumulada. É importante lembrar que o bruxismo não deve ser encarado apenas como um problema odontológico isolado, mas sim como uma condição multifatorial que exige abordagem ampla. Assim, ao reduzir os níveis de estresse, o paciente não só controla os episódios de bruxismo, como também experimenta melhora significativa no quadro de zumbido associado.
Medicamentos (uso específico)
Em alguns casos, quando os sintomas do bruxismo são intensos e não respondem adequadamente às medidas iniciais, pode ser necessário lançar mão de medicamentos de uso específico. Essa abordagem, no entanto, deve ser sempre criteriosa e supervisionada por um médico ou dentista, já que se trata de uma solução complementar e temporária.
Os analgésicos podem ser indicados para controle da dor aguda, aliviando o desconforto imediato e permitindo que o paciente consiga realizar as demais terapias propostas. Já os relaxantes musculares são úteis em casos de espasmos intensos da musculatura mastigatória, promovendo relaxamento e facilitando o descanso noturno. Em situações em que o componente emocional é predominante, ansiolíticos podem ser prescritos por curto período, ajudando a reduzir a ansiedade e a frequência dos episódios de apertamento noturno.
É importante ressaltar que os medicamentos não devem ser vistos como uma solução definitiva, mas sim como coadjuvantes no processo terapêutico. Eles oferecem suporte enquanto a placa miorrelaxante, a fisioterapia e o manejo do estresse produzem resultados duradouros. O uso inadequado, sem orientação profissional, pode trazer riscos, como dependência ou efeitos colaterais indesejados. Por isso, sua prescrição deve sempre estar inserida em um plano de tratamento bem estruturado e acompanhado de perto por profissionais de saúde.
Ajustes oclusais e reabilitação dentária
Corrigir desgastes e realinhar a mordida pode restabelecer equilíbrio funcional, reduzindo os estímulos ao bruxismo.
Quanto tempo até sentir alívio?
Em geral, pacientes com zumbido associado ao bruxismo apresentam melhora expressiva ou desaparecimento dos sintomas logo após o início do tratamento adequado — especialmente com o uso da placa interoclusal, redução do estresse e relaxamento muscular.
Prevenção — como evitar que o zumbido causado pelo bruxismo apareça ou piore.
Embora o zumbido relacionado ao bruxismo tenha tratamento eficaz, o ideal é adotar medidas preventivas que reduzam o risco de surgimento do problema ou impeçam sua progressão. A prevenção não depende apenas de cuidados odontológicos, mas também de hábitos diários e atenção ao estilo de vida.
1. Identifique hábitos de ranger ou apertar os dentes
Muitos pacientes não percebem que rangem os dentes durante o sono ou mesmo em vigília, quando estão concentrados, dirigindo ou usando o computador. Prestar atenção a esses momentos de contração mandibular é o primeiro passo para controlar o bruxismo.
2. Procure ajuda logo nos primeiros sinais
Dor facial ao acordar, sensibilidade dentária e desgastes visíveis nos dentes são sinais de alerta que não devem ser ignorados. Quanto mais cedo o diagnóstico for feito, menor a chance de complicações como fraturas dentárias, problemas articulares e o surgimento de zumbido.
3. Cuide da postura e do relaxamento muscular
A posição incorreta da cabeça e do pescoço, especialmente em quem passa horas em frente ao computador, aumenta a tensão sobre a mandíbula. Corrigir a postura, praticar alongamentos simples e reservar momentos do dia para relaxar ajudam a reduzir a sobrecarga muscular.
4. Invista na higiene do sono e no controle do estresse
Sono de má qualidade e altos níveis de estresse são gatilhos potentes para o bruxismo. Criar uma rotina de sono regular, evitar cafeína à noite, praticar técnicas de respiração ou meditação e adotar atividades físicas regulares contribuem diretamente para a prevenção.
5. Mantenha consultas odontológicas regulares
O acompanhamento periódico com o dentista é essencial. Nessas consultas, é possível detectar sinais iniciais de bruxismo, ajustar a mordida quando necessário e indicar o uso de placas miorrelaxantes, que protegem dentes e articulações antes que os sintomas se tornem graves.
Voltar para o blog


