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Luis Gustavo Morato Leite

Gengivoplastia a laser traz riscos para retração gengival.


A gengivoplastia a laser vem ganhando espaço na mídia. O que parece ser um procedimento cirúrgico preciso e seguro é, na verdade, uma técnica que traz riscos elevados para sequelas como a retração gengival irreversível – além da irregularidade dos recortes gengivais.

 

Luís Gustavo Leite é especialista em gengivoplastia (periodontista) na cidade de Porto Alegre.

 

 

O que é a gengivoplastia a laser

 

A gengivoplastia é um procedimento cirúrgico que remodela o contorno da gengiva, corrigindo excessos de tecido gengival e gengivas irregulares, como no sorriso gengival.

 

Na técnica tradicional, o recorte é feito com bisturi de lâmina fina, enquanto na gengivoplastia a laser o corte é realizado por um feixe de luz concentrado, que corta e cauteriza ao mesmo tempo.

 

A gengivoplastia a laser é indicada por reduzir o sangramento durante o procedimento e diminuir a sensibilidade pós-operatória.

 

 

Pós-operatório: dor na gengivoplastia tradicional é facilmente controlada por analgésicos simples.

 

Um estudo publicado no Journal of Periodontology (2019) mostrou que 78% dos pacientes operados com laser relataram menos dor no pós-operatório, porém apenas 61% obtiveram contorno gengival simétrico estável após 6 meses, contra 84% na técnica convencional.

 

A questão aqui é que a dor durante o período pós-operatório da gengivoplastia tradicional é facilmente controlada por analgésicos simples, praticamente tornando inútil a única vantagem da técnica a laser.

 

gengivoplastia remoção de gengiva em excesso post blog
Gengivoplastia a laser é indicada nas pequenas remoções de gengivas em excesso, sem recorte e remodelação óssea.

 

 

Resultados  da gengivoplastia a laser são limitados

 

O sorriso gengival é a exposição excessiva das gengivas ao sorrir ou até mesmo ao falar. Mais comum em mulheres, ele é o principal motivo para consultas de avaliação para a gengivoplastia.

 

Na quase totalidade dos casos, a correção cirúrgica do sorriso gengival exige, além do recorte das gengivas em excesso, o recorte e remodelamento do osso que também recobre os dentes.

 

A gengivoplastia a laser não pode ser utilizada em conjunto com o recorte e remodelação óssea. A consequência disto é que o laser é indicado apenas para os pequenos recortes de gengiva, desde que as bordas das gengivas estejam distantes das bordas ósseas – o que evita o risco para a retração gengival permanente.

 

 

Riscos da gengivoplastia a laser são inúmeros

 

Ambas as técnicas de gengivoplastia, quando mal executadas, podem trazer complicações durante o período pós-operatório ou tardias. Entretanto, os problemas associados à gengivoplastia a laser são mais frequentes. Veja os principais problemas associados ao laser:

 

Retração gengival 

Um dos riscos mais comuns da gengivoplastia a laser é a retração gengival, que aparece semanas ou meses após o procedimento.

 

Estudos clínicos relatam uma incidência entre 12% e 18% dos casos, dependendo do tipo de laser e da potência utilizada.

 

Isso acontece porque o calor gerado pelo laser provoca desnaturação das fibras colágenas na camada mais profunda da gengiva.

 

E o risco para retração gengival é ainda maior em pacientes com biotipo gengival fino são os mais vulneráveis. Nesse grupo, o risco de retração significativa pode chegar a 28%, especialmente quando a cirurgia é feita em áreas estéticas (incisivos e caninos superiores).

 

Irregularidade do contorno gengival

Apesar da aparência precisa do feixe de luz, o laser não oferece a mesma definição anatômica que um bisturi ultrafino.

 

Um levantamento da American Academy of Periodontology (2022) mostrou que um em cada quatro procedimentos feitos exclusivamente com laser apresentaram assimetria perceptível no contorno gengival após a cicatrização.

 

O resultado é um sorriso com altos e baixos gengivais perceptíveis sob a luz natural — especialmente em pacientes com dentes pequenos e exposição gengival acentuada.

 

Destruição das papilas, as gengivas localizadas entre os dentes

As papilas gengivais, pequenas porções de gengiva entre os dentes, são estruturas extremamente sensíveis ao calor. Quando expostas a temperaturas acima de 70°C (algo comum em lasers sem refrigeração), há destruição imediata das células epiteliais e colágenas.

 

Segundo o estudo de S. Kim et al. (Lasers in Medical Science, 2020), a lesão térmica papilar ocorre em 36% dos casos de gengivoplastia a laser sem refrigeração, enquanto apenas 4% quando a técnica convencional é usada com bisturi e irrigação constante.

 

A perda da papila é um dos problemas mais difíceis de corrigir: ela gera “black spaces” (espaços negros entre os dentes) e aparência envelhecida do sorriso, com impacto estético e funcional.

 

Cicatrizes gengivais e escurecimento das gengivas

A superfície gengival após o uso do laser pode apresentar áreas de fibrose ou brilho irregular, resultado de carbonização superficial.

 

Em uma análise histológica realizada por C. Bornstein (Universidade de Zurique, 2021), as amostras de tecido submetidas ao laser mostraram aumento de 35% na espessura epitelial e 22% na densidade de colágeno desorganizado — sinais típicos de cicatrização fibrosa.

 

Essas alterações dificultam o resultado estético, tornando a gengiva menos translúcida e menos natural sob luz direta. Em fotografias clínicas de acompanhamento, essas diferenças de textura ficam visíveis mesmo 12 meses após a cirurgia, com as gengivas aparecendo escurecidas além das bordas das gengivas.

 

Risco para necroses e tratamento de canal

Embora raros, os danos provocados pelo uso do laser às raízes dentárias e ao osso alveolar são complicações documentadas.

 

Quando a ponta do laser é usada muito próxima às raízes dos dentes, o risco de necrose do dente é relatada em até 8% dos casos (dados de Kustarci et al., Photomedicine and Laser Surgery, 2018).

 

O resultado disto é a necessidade para tratar o canal (tratamento endodôntico) dos dentes atingidos acidentalmente pelo feixe de luz durante a gengivoplastia.

 

Recidiva: as gengivas voltam a crescer

Ao contrário da gengivoplastia convencional, que além de remover as gengivas em excesso também recortam e remodelam o osso em excesso ao redor dos dentes, a gengivoplastia a laser remove apenas as gengivas. Como resultado, a recidiva cirúrgica (gengivas voltam a crescer) são comuns.

 

Estudos de acompanhamento de 5 anos indicam taxa de recidiva de 22% em gengivoplastias realizadas exclusivamente com laser, contra 6% nas cirurgias convencionais com osteotomia complementar.

 

retração gengival causas
Retração gengival irreversível é risco elevado da gengivoplastia a laser.

 

 

O apelo de marketing pela gengivoplastia a laser está por trás de muitas complicações.

 

A popularização da gengivoplastia a laser está muito ligada à percepção de modernidade e conforto.

 

Consultórios que adotam a tecnologia anunciam menos sangramento, ausência de pontos e recuperação mais rápida — o que é parcialmente verdadeiro.

 

No entanto, boa parte dos pacientes não sabe que a margem de erro do laser é maior, e que pequenas falhas podem gerar sequelas estéticas irreversíveis.

 

 

Gengivoplastia tradicional é mais precisa e segura.

 

A gengivoplastia tradicional é a técnica mais recomenda para recortar e remodelar gengivas em excesso. Indicada desde a correção do sorriso gengival até pequenos alinhamentos de gengivas, é um procedimento seguro e previsível.

 

A gengivoplastia a laser deve ser utilizada com muito cuidado, apenas em pequenos recortes de gengivas, e quando as bordas do osso que sustenta as raízes dos dentes estão distantes das gengivas que serão recortadas.

 

Recomenda-se sempre, para quem ainda assim opta pela técnica de gengivoplastia a laser, o exame por imagem do tipo tomografia. Através deste exame é possível precisar a distância das bordas das gengivas das margens ósseas, um cuidado indispensável para evitar a retração gengival irreversível.

 

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